É interessante como um texto pode mexer com a gente!
Escrevi sobre a força que a literatura tem em nossa alma no artigo anterior a este — e recomendo que você o leia, caso ainda não tenha feito.
Revelo com isso dois segredos meus — nenhum dos dois modificará em nada a sua vida, mas é só para que você saiba algo a mais sobre mim…
Primeiro: tenho um lugar em uma das minhas estantes de livros — alguns que reservo e que vou, de tempo em tempo, trocando — que considero como “livros vivos”.
Vivos porque contêm um certo tipo de força (aquele tipo de força que descrevi no artigo anterior) e que, quando preciso de um pouco de respiro para a minha alma, é a eles que recorro.
Segundo: não empresto meus livros!
Raros são os casos em que realmente os empresto. E, quando o faço, é com um certo sentimento de arrependimento… misturado com uma sensação de estranheza e frustração.
Foi por esses dias que, tendo contato com um breve texto — de um destes “livros vivos”, datado de 1987 — fui impactado. Um trecho simples, direto, de um livro de Filosofia… mas que entrou em minha alma e mente com tal força que fiquei por dias com ele dentro de mim.
Essa é a força da literatura. Essa é a força da escrita.
Ela tem o poder de trazer luz onde há escuridão.
De invadir lugares onde havíamos erguido muros.
De devolver vida à vida que estava morta.
Sem mais delongas, queria que você apenas lesse o texto abaixo.
Mas não leia de qualquer jeito.
Não leia com pressa.
Leia como quem tem disposição de ser alterado por ele.
Leia como quem se abre para uma luz que pode mostrar o que há de mais escondido — e sujo — dentro de si.
Leia… e depois silencie um pouco.
Sua alma precisa da sua razão para assimilar o que leu.
“A fórmula temporal da vida humana seria a expressão ‘os dias contados’, e isso nos obriga a algo decisivo: ter de acertar.
Ortega insistia sempre em que, se a vida fosse interminável, não teria importância errar, porque o tempo perdido seria indiferente — sobraria sempre outro para retificar ou tornar a começar.
Porém, não é assim. E o tempo perdido é irrecuperável. É uma parte insubstituível de nossa vida. E daí a exigência de acertar.
Há porém algo mais: não se trata só dos dias contados, mas dos dias ordenados.
O tempo da vida não é homogêneo, mas articulado em idades — e cada uma tem suas possibilidades, suas apetências, suas limitações.
O que não se faz na infância ou na juventude não se pode fazer depois, e inversamente.
Os dias da vida são qualitativamente distintos.”
— Julián Marías
Não vou descrever aqui a minha experiência com esse texto.
Quero que você faça a sua.
Mas preste atenção a essas expressões:
“dias contados”, “exigência de acertar”,
“dias ordenados”, “tempo irrecuperável”,
“dias distintos”…
Para quem leva a vida a sério — e sabe que a alma humana é imortal — e que ao final da vida (cuja chegada nunca sabemos quando será) seremos julgados por aquilo que fizemos…
Isso é muito sério.
O que fazemos é uma ação que acontece dentro do tempo.
Todos os dias, esse tempo tem um início e um fim — ao menos cronologicamente —
e é dentro desse tempo que temos todas as possibilidades de acertos e erros.
E é dentro desses acertos e erros que recairá sobre nós o julgamento.
Não podemos reviver o que foi vivido.
Podemos fazer novas escolhas.
O que aconteceu… não “desacontece”.
Pode até haver um novo capítulo. Mas jamais veremos a história negar o que já foi escrito!
Portanto: cuidado com o livro que você entregará nas mãos do Justo Juiz!